Meu jardim é cheio de coisas: flores, folhas, bichos, terra, pedaços de madeira. Tem muitas cores. E muitos olhares. Daqui eu vejo a vida amanhecer azul ou entardecer laranja. Vejo sorrisos amarelos, abraços verdes, carinhos cor de sangue. E vejo a lua. Daqui eu vejo quase tudo, com a lente da cor da flor que eu escolho a cada dia. Aqui, minha vida é mais do jeito que eu quero, leve, bela, pingando amor com o orvalho das frescas manhãs. Como é doce, como é gostosa a vida, olhando daqui.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
A imagem turva
Lembro-me que tinha os olhos pequenos, amendoados, a face meio fina e um queixo delgado. Lembro-me levemente de uns traços da boca. Esqueço, aos poucos. Foge à memória, quando tento ver-lhe a cor dos olhos e o tom da pele. Escapa de meus pensamentos a forma dos dedos e o arco da nuca. A foto ao lado às vezes me lembra de algo que se perde, mas ela já não fala mais de como é seu rosto, não me conta mais desse sorriso. A imagem presa ao passado conta de um tempo que não há mais. Histórias, para contar ou não, para lembrar ou não, para deixar passar, para transformar em contos, filmes e nada mais.
De vez em quando, sem que eu perceba, a imagem surge clara e lúcida, num piscar de olhos. Às vezes em sonho, ou quando a ressaca da tristeza se esconde por uns segundos. Vem aquele relâmpago de lembrança, jogando nas pupilas de dentro a certeza daquele olhar. Vem e passa, tão rápido quanto a luz. E volto a me esquecer, a perder entre outras visões de letras, borboletas e pôr-do-sol, a face de quem está sempre presente. A lucidez se enevoa, a luz diminui tirando o foco do sorriso, do brilho do olhar.
A imagem, cada vez mais turva, diz que algo se perdeu. A saudade vira lembrança, guardada no fundo para ser contemplada um dia, quem sabe, quando já não houver mais dor, nem tristeza, nem rancor. Só uma imagem turva, uma sombra sem formas, sem cor, sem sentido. Um borrão de tinta, uma marca. E como nem todas as marcas se apagam, ficam assim, essa mancha amorfa cujos contornos não conseguimos mais distinguir. Mas é esse o sentido das marcas – contar algo de nós, lembrar que algo tão nosso, mesmo que perdido no espaço e no tempo, permanece em algum lugar.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
A morte tece seu o fio de vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas do teu desejo
O mundo todo marcado a ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo,
a morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tranças do teu desejo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe
A cera da vela queimando,
o homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando,
a vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo.
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe...
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Mineirices
Aqui o frio é mais quente
Aqui a montanha está no quintal
Aqui o café é mais forte
Aqui a lua é mais brilhante
As estrelas menos distantes
O espelho mais igual
Aqui a noite é de silêncio
Aqui não tem sirene, buzina
Aqui o pão é mais gostoso
O queijo muito mais saboroso
A água mais limpa
O cheiro mais doce
O verde mais perto
O azul é mais céu
Aqui sou mais calada
Aqui sou mais quieta
Aqui escuto a alma
Aqui enxergo por dentro
Aqui vejo tudo mais calmo
No centro
Tudo mais calmo no centro de mim.
sábado, 20 de março de 2010
Sobre a saudade que há
O pior quando se sente saudade
é perceber a crueldade do tempo e da distância
Que faz o calor dos abraços se perder
Faz a lembrança do olhar esmaecer
E a sensação do toque transformar-se em vento.
O pior de sentir saudades
É o silêncio eternizado em canções ou lágrimas
É a vontade de falar naquela hora
Uma palavra que nunca mais será dita
Pois está para sempre perdida na incapacidade de ser.
Sentir saudade nem sempre dói
Ainda mais quando se aprende a viver distante
Quando se tem amigos e amores ausentes
Quando se deixa a casa da mãe para viver só
Quando se compreende o sentido das ausências
Quando se acostuma com as batalhas de um guerreiro só
Quando se tem mais amor que apego
Aí, sim, aceitamos sentir essa falta
E não a deixamos doer.
Mas sentir saudade é não ver só a lua
Mas um mundo que poderia ser melhor
- ou não.
E mesmo que não se sofra, mesmo que não seja tão ruim
O pior da saudade é a incerteza
De que um dia ela será passado e lembranças bobas
O pior é não saber.
E não sabendo o que virá,
Não sabendo o que será,
A espera é quase uma morte
É um risco que se corre
De nunca deixar de ser só saudade.