segunda-feira, 24 de maio de 2010

Música, música para os corações

A imagem turva

Lembro-me que tinha os olhos pequenos, amendoados, a face meio fina e um queixo delgado. Lembro-me levemente de uns traços da boca. Esqueço, aos poucos. Foge à memória, quando tento ver-lhe a cor dos olhos e o tom da pele. Escapa de meus pensamentos a forma dos dedos e o arco da nuca. A foto ao lado às vezes me lembra de algo que se perde, mas ela já não fala mais de como é seu rosto, não me conta mais desse sorriso. A imagem presa ao passado conta de um tempo que não há mais. Histórias, para contar ou não, para lembrar ou não, para deixar passar, para transformar em contos, filmes e nada mais.

De vez em quando, sem que eu perceba, a imagem surge clara e lúcida, num piscar de olhos. Às vezes em sonho, ou quando a ressaca da tristeza se esconde por uns segundos. Vem aquele relâmpago de lembrança, jogando nas pupilas de dentro a certeza daquele olhar. Vem e passa, tão rápido quanto a luz. E volto a me esquecer, a perder entre outras visões de letras, borboletas e pôr-do-sol, a face de quem está sempre presente. A lucidez se enevoa, a luz diminui tirando o foco do sorriso, do brilho do olhar.

A imagem, cada vez mais turva, diz que algo se perdeu. A saudade vira lembrança, guardada no fundo para ser contemplada um dia, quem sabe, quando já não houver mais dor, nem tristeza, nem rancor. Só uma imagem turva, uma sombra sem formas, sem cor, sem sentido. Um borrão de tinta, uma marca. E como nem todas as marcas se apagam, ficam assim, essa mancha amorfa cujos contornos não conseguimos mais distinguir. Mas é esse o sentido das marcas – contar algo de nós, lembrar que algo tão nosso, mesmo que perdido no espaço e no tempo, permanece em algum lugar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Porque a letra é linda, a música tanto quanto. Porque amanhã deixo Minas,mais uma vez...

DESENREDO

Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro


Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo

A morte tece seu o fio de vida feita ao avesso

O olhar que prende anda solto

O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo

Nas tramas do teu desejo

O mundo todo marcado a ferro, fogo e desprezo

A vida é o fio do tempo,
a morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tranças do teu desejo


Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou

Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando,
o homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando,
a vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo.

Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou

Vou-me embora pra bem longe...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Mineirices

Aqui o frio é mais quente

Aqui a montanha está no quintal

Aqui o café é mais forte

Aqui a lua é mais brilhante

As estrelas menos distantes

O espelho mais igual


Aqui a noite é de silêncio

Aqui não tem sirene, buzina

Aqui o pão é mais gostoso

O queijo muito mais saboroso

A água mais limpa

O cheiro mais doce

O verde mais perto

O azul é mais céu


Aqui sou mais calada

Aqui sou mais quieta

Aqui escuto a alma

Aqui enxergo por dentro

Aqui vejo tudo mais calmo

No centro

Tudo mais calmo no centro de mim.

sábado, 20 de março de 2010

Sobre a saudade que há

O pior quando se sente saudade

é perceber a crueldade do tempo e da distância

Que faz o calor dos abraços se perder

Faz a lembrança do olhar esmaecer

E a sensação do toque transformar-se em vento.

O pior de sentir saudades

É o silêncio eternizado em canções ou lágrimas

É a vontade de falar naquela hora

Uma palavra que nunca mais será dita

Pois está para sempre perdida na incapacidade de ser.


Sentir saudade nem sempre dói

Ainda mais quando se aprende a viver distante

Quando se tem amigos e amores ausentes

Quando se deixa a casa da mãe para viver só

Quando se compreende o sentido das ausências

Quando se acostuma com as batalhas de um guerreiro só

Quando se tem mais amor que apego

Aí, sim, aceitamos sentir essa falta

E não a deixamos doer.


Mas sentir saudade é não ver só a lua

Mas um mundo que poderia ser melhor

- ou não.

E mesmo que não se sofra, mesmo que não seja tão ruim

O pior da saudade é a incerteza

De que um dia ela será passado e lembranças bobas

O pior é não saber.

E não sabendo o que virá,

Não sabendo o que será,

A espera é quase uma morte

É um risco que se corre

De nunca deixar de ser só saudade.

sábado, 6 de março de 2010

Há tempos não faço poesia
Às vezes me falta um assunto
Em outras é falta de rima.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Leia-me


Há muitas entrelinhas, no olhar, nos dedos, na carne escura, no abrir e fechar dos lábios quase vermelhos. Há pedidos que são verdadeiras preces e preces que soariam como heresias se ditas em meio tom. Há sorrisos disfarçados no piscar dos olhos arredios e desespero por trás do saracoteio dos ombros graciosos.


Há tanto, tanto a ser dito que seria impossível em duas, três encarnações. Uma eternidade inteira seria pouco, desconfio. E tanto a ser ainda pensado e falado e escondido que deveria dispor-se a gastar mais tempo do que de costume. As palavras nunca me chegam na hora e as vírgulas tremulam na língua, vão e voltam ressabiadas, caindo por vezes no lugar errado e trocando os sentidos. Sentimentos que se espalham por sobre a pele vezes febril, vezes gélida, escorrem pela dimensão do corpo e voltam, atravessando os poros, correndo para o sangue, chegando de novo ao coração. Este se embaraça, finge que não vê, bate como se fosse um tambor qualquer e não parte vital de mim. Escondem-se nele os mais íntimos, lindos e sombrios sentimentos, os mais cruéis e encantadores pensamentos, tudo que ninguém consegue ver.


Inútil tentar ouvir, o som se cala. Meu espelho se quebra e a sorte se lança, como suicida no desfiladeiro, como para-quedista em tarde de sol. Descobri que, se deixo a água entrar nos ouvidos durante o banho e coloco a cabeça debaixo do jato de água gelada, escuto como uma meia surdez, um som abafado, como se os ouvidos da alma estivessem mais abertos. Faço isso, para me ouvir de vez em quando. Escuto. E guardo segredo. Não me peça que os diga, não os direi de forma alguma. Mas eles seguem comigo e escapam em algum olhar. É preciso estar bem perto para ver, atento para compreender. Fora isso, nada mais entrego. Sou isso. Nem esfinge, nem notícia. Só silêncios.