terça-feira, 21 de dezembro de 2010


Meu último domingo no Rio, este ano. Fui à praia da mesma forma como cheguei aqui há quase 6 anos: sozinha. E como tem sido durante todo esse tempo nas batalhas diárias e na guerra sem fim do “salve-se quem puder”, tentando resistir às horas que passam rápidas quando se tem carinho, e às que passam lentas quando se tem ausência, silêncio ou dor. Nunca deixarei de dar crédito àqueles que passaram e os que ainda estão compartilhando tanta coisa, conquistas, alegrias, tristezas, sorrisos e abraços. Muitos, a quem devo agradecer imensamente por tornarem meus dias cariocas um pouco mais leves e suportáveis. E agradáveis.

Mas fiz do meu domingo uma ode à minha solidão, palavra que assusta tanta gente, mas que sabendo tratá-la a pão-de-ló (nossa, que expressão mais antiga!!) pode ser usada a nosso favor. E assim, fui para o mar, que tanto amor transborda em mim, com minhas leituras – as palavras, eternas companheiras – para o meio de tanta gente que não sabe meu nome, não se interessa pela minha vida e mesmo assim, divide o mesmo sol, o mesmo calor e muitos, a mesma solidão. E foi entre letras e mergulhos que agradeci pelas conquistas, aceitei as perdas e lancei ao horizonte encantadoramente lindo os desejos de bem e luz para os próximos dias. Foi entre as conversas e os gritos da praia que fiquei num silêncio profundo, fitando as bolinhas de energia que se agitavam no azul do céu, procurando escutar somente aquilo que me era de fato, necessário.

Por vezes tentava me levantar e seguir andando, mas não havia espaço. Também tentei juntar as coisas e ir embora. Inútil. O dia era de uma beleza que seria inaceitável não ver aquele por de sol. E até que se despedisse a última luz do dia, até que o universo pingasse em mim a última gota de claridade e leveza, não poderia partir. E quando o fiz, foi novamente sozinha, com um presente nas mãos – “já que você lê tanto, tome este livro. Presente!”. Novamente sozinha, até chegar no casulo onde tenho visto minha vida desabrochar, quase fora do meu controle, onde tem surgido uma mulher que às vezes não reconheço e a quem de vez em quando expulso, mas que tem conseguido cada dia mais espaço dentro de mim. E debaixo do chuveiro me despeço do último domingo aqui, da última noite aqui, do último café. Amanhã, não haverá a solidão, nem o silêncio, nem as ausências. Tristezas sim, essas não se desgrudam das solas dos meus sapatos e me acompanham como chiclete grudado no pé. Mas vou pisando torto, desviando-me delas, sendo feliz assim mesmo, “apesar de”. E dormirei amanhã com os meus, os que são eternamente meus, mesmo quando não estão.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Casa de vidro

Subi as escadas, cansada. As malas estavam pesadas e a caminhada até o portão aconteceu debaixo de um sol esquisito, um calor abafado fora de época, que trazia a chuva do fim da tarde. Eu não tinha mais vontade de subir, mas também não ficaria parada diante da casa antiga, caindo aos pedaços. Entrei. Na sala pequena estavam o velho sofá, a TV e o móvel que a avó ganhara no aniversário. A estreita porta que levava à cozinha tinha uma cortina de pano que mais parecia querer esconder os que estavam lá dentro do que enfeitar o pequeno cômodo. Fui até a pia e lavei as mãos com o sabão caseiro, tomei um copo e enchi de água fresca. As crianças corriam para me ver, agarravam minhas pernas e pediam um doce, um presente, uma nova história. Eu não tinha nada para elas. Eu não tinha nada para ninguém.

Sentei de frente para a mãe, como se esperando que ela resolvesse falar algo. Nenhum sinal de vida dentro daquele corpo sereno e calorento. Tinha os olhos um pouco vermelhos e lacrimosos, sabia que eu estava ali depois de tantos anos. Fiquei olhando aquela pessoa tão fraca, tão cheia de cansaço e dor que antes era a força que sustentava toda aquela família. Estava um pedaço de gente, quase um resto de mulher que já vivera tudo que podia e não podia. A pele preta enrugada contava mais histórias que qualquer livro Best-seller dos últimos tempos – histórias de amor, de dor, de brigas, de trabalho, de cidades construídas e destruídas, de lares feitos e desfeitos, de morte, etc. Ali, naqueles caminhos de rugas havia tantas palavras, que já não cabiam mais em sua boca e agora escorriam com o suor febril.

Fiquei algum tempo ali sentada, para descansar da viagem e para aproveitar a presença silenciosa daquela mulher. Entristecia-me vê-la tão calada. Alegrava-me vê-la viva. Mesmo depois de tudo, ainda restava-lhe ânimo para sair da cama às 7 da manhã, sentar-se na sala, caminhar até a varanda, às 3 da tarde e voltar à cama às 6 horas da noite, hora dos anjos, como costumava dizer. Ainda olhava para o pequeno oratório que tinha na cabeceira da cama, com imagens de santos e fotos dos parentes queridos. Olhando as suas fotos, eu sempre me lembrava das fantasias de quando era criança, das festas onde todos cantavam e dançavam, dos doces e das brincadeiras de quintal – quando havia quintal. Tudo virado fumaça com o brincar do tempo em nossos cabelos...

Os outros foram chegando ao longo do dia, e eu ainda me mantive sentada no mesmo lugar. Via o vento soprar um vapor amargo nas árvores do lado de fora, percebia a agitação da rua com o dia de festa. Era quase Natal, de novo, e sentia a leve irritação me invadir ao pensar em presentes, comida e tudo mais. Muito vazio. O homem já não existia, desde que a morte resolvera tomá-lo de nós. Presentes, nunca foram muitos, pela falta de recurso e pelas compras feitas ao longo do ano. Comida, sim, havia bastante, por todos os lados. Havia mais gente do que cabia na casa, e todos pareciam muito felizes com o reencontro. Enfim, a senhora foi colocada, com cuidado ao centro da mesa, como uma rainha num trono de um reino decadente e estúpido que se desfazia a cada passar de estação. Finda a primavera, morriam nossas flores; passado o inverno, desmanchavam-se nossos cobertores; outono levava consigo nossos ventos de esperança; fim de verão e as chuvas cruéis enlameavam as últimas chances de que aquele jardim voltasse a florescer.

Era tarde da noite e todos se recolhiam. Fiquei mais um tempo sentada de frente para a mesa, lembrando do avô, do bisavô, do tio e do pai. Ficaram todas as mulheres, com suas lembranças de traições e saudades, seus filhos mortos e suas mãos machucadas. Ficaram os corações despedaçados ao longo da vida ingrata, que lhes tirou o amor, a beleza, em troca de quase nada. A tia, a mãe, a avó, a bisavó. Estavam agora se despindo, em silêncio, voltando sozinhas para as camas, esperando o relógio soar novamente a hora de abrir o olhos para o nada. No quarto escuro e empoeirado, fechei os olhos depois de ver no teto o desenho daquela solidão. No dia seguinte partiria novamente, com as mesmas malas pesadas, onde eu não trouxe nada, onde eu não levo nada. Partiria com a tristeza nos olhos, depois do abraço enfraquecido, descendo as escadas sob o olhar abandonado dos que ficam por ali. “Até para o ano, se deus quiser” – ainda posso ouvir de longe. Deus queira que quando eu volte, a casa ainda esteja no mesmo lugar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

No dia dos professores

Este texto foi publicado já há alguns anos, num mês de outubro, em homenagem às crianças e aos professores. Resolvi retomá-lo aqui, pois ainda traduz algo dos meus pensamentos sobre essas duas figuras que tanta mudança causam em nossas vidas. E aproveito o dia para parabenizar e mandar as vibrações de força e coragem para meus colegas de trabalho, esses guerreiros da educação brasileira bastante ingrata! Feliz dia dos professores!!!


Sobre crianças e mestres

Se você me ensinar, eu posso viver com a calma que quiser, ouvindo tudo o que tem a me dizer e parando meu dia para brincar. Posso contar histórias de navios, piratas e crianças que voam pela janela durante a madrugada, antes de você dormir. Posso inventar um castelo debaixo da cortina da sala e lutar contra os dragões que invadiram a cozinha ontem à noite. E só você viu.

Se me ajudar eu vou esquecer todas as tristezas que me aconteceram só para assistir desenho, comendo pipoca e rolando no chão. Vou me esconder dentro do guarda- roupas, se me couber, se é isso que você pede. Vou pintar o nariz de vermelho e mostrar a língua na janela, só pra cair na risada depois. Mas você tem que me ajudar.

Também tem que me ensinar a não falar coisa com coisa, assim como você faz. Usar as palavras sem uma lógica, mas com tanta vontade que acredita estar realmente dizendo alguma coisa. Quero que me ensine a lamber a raspa da panela sujando todos os dedos da mão, lambuzando a cara, a roupa e se olhando no espelho para ver como está engraçado. Quero que me ensine a fazer graça também.

Se você me ensinar, posso viver com a leveza e tranqüilidade que você tem quando dorme. Só há um problema: eu já não tenho a sua idade. Por isso vai ser difícil aprender. Difícil, porque há muito me esqueci da graça que criança vê em tudo; perdi a imaginação mais do que fértil; agora eu tenho senso de ridículo, um calo que só serve pra atrapalhar a vida da gente que é grande; eu tenho uma imagem, um nome, uma posição social, você nem sabe o que é isso. Pois é, mas eu sei e eles, tá vendo os espiões ali? Pois é, eles também sabem. E estão me vigiando. É que eu agora tenho que trabalhar, sair de casa todos os dias e voltar cansado, pra receber num mês o que aqueles espiões ali gastam em um dia. Eu tenho que ser sério, porque me disseram que não se pode rir à toa; tenho que falar baixo, porque disseram que gritar é falta de educação; eu tenho dor nas costas porque me obrigaram a ficar sentado por muito tempo em frente a um computador; eu tenho responsabilidades, porque me chamam cidadão; eu tenho compromissos, porque me deram as chaves de uma casa, de um carro e uma vida de adulto sem ao menos perguntarem se eu queria. Não me deram tempo de pensar. Agora é tarde. Então eu quero que me ensine a ser feliz de novo. Como você.

E assim, espero que mais tarde você encontre alguém que lhe ensine as coisas do mundo sem fazer esquecer de tudo que me ensinou. Um professor que lhe ensine, não ficar sentado olhando para a frente, mas a correr e pular pelos muros da vida, olhando para todos os lados, não deixando nada escapar; um professor que não mande calar a boca, mas que mostre os momentos certos de expor sua opinião; que não fique preso aos livros (nada) didáticos com suas fotos e textos ultrapassados, mas que leve o dia-a-dia para a sala, para ser discutido, criticado, aprendido; que não cobre nas provas as frases decoradas, mas sua capacidade de articular suas próprias idéias. Espero que encontre um professor que deixe você usar toda sua criatividade, que o deixe criar, que use a arte para ilustrar as idas e vindas da história, que não se prenda a números e notas, porque você não é um número. Não se permita ser. Espero que encontre alguém que ensine a usar a espontaneidade ao invés de reprimi-la e principalmente, alguém que acredite na sua capacidade de ser melhor.

Então você crescerá sem pressa, vivendo tudo no tempo certo, sabendo que há alguém a quem possa perguntar “por que”, não temendo a falta de resposta, pois se não lhe explicarem as razões, você mesmo saberá inventá-las, como fazia com as histórias de dragões. Terá mais coragem pra enfrentar os medos, já que pulou tantos e tão altos muros, que não verá nada que possa atrapalhar seu caminho. Saberá usar todos os ensinamentos de acordo com cada situação, sem se prender a fórmulas e respostas prontas. Espero que tenha um verdadeiro mestre, que não lhe diga o que fazer, mas que mostre como achar a solução, como procurá-la. Um mestre capaz de dizer o quão difícil é a vida sem lhe tirar o prazer de vivê-la. Um mestre que seja capaz de aprender com cada pessoa, e que aprenda com as crianças o desejo eterno de conhecer.

Em um país distante, lá pelos lados do Oriente, as crianças quando iam para a escola pela primeira vez recebiam como presente de boas vindas um pedaço de chocolate meio amargo. Muito mais que um agrado aos pequenos feito por seus futuros mestres, o presente simbolizava como seria o processo de aprendizado, que é semelhante à vida: doce, mas nem tanto...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Primavera

Eu me mudei. Saí levando tudo que podia, deixando muito mais coisa que um dia imaginei deixar. Cobri os móveis, tranquei a porta. Penso nunca mais voltar. Andei e atravessei a rua comprida, cruzei o sinal e vi a avenida central, sinuosa e traiçoeira, me chamando sem ver o fim. Andei e continuo andando. Acabo de jogar as chaves fora. Rasguei o papel com o endereço. Agora penso em deixar essa bolsa por aqui. Ela tem os meus documentos, meus números e minhas imagens registradas em 3 por 4. Coloco a bolsa no chão, abro o e pego um espelho. Deixo o resto e sigo adiante. Olho pelo pequeno vidro e confiro se as lentes estão no lugar. Melhor tirá-las também. Melhor agora é nem enxergar a nitidez do que não o é. Melhor assim, meio embaçado, com cara de sonho em filme de ficção. Jogo o espelho com força e ele se quebra em milhares de pedacinhos que nem ouso contar. Um, dois, três e saio correndo de mim. Explodindo, minha alma se levanta de solavanco, como se um susto a acordasse de repente, assim como a gente acorda atrasado porque não ouviu o despertador. Corro, corro, corro, pra bem longe de tudo que me prendia. Corro mais um pouco e respiro ofegante, sem saber bem onde estou. E é por aqui que devo ficar um pouco, até a chuva parar, até o sol diminuir, até o vento voltar. Vou ficando, ficando, deixando crescer novas raízes e esperando o tempo das novas flores. Nova primavera ao meu redor e novidades no centro de tudo. Não sei onde estou, não sei como cheguei aqui, não sei o caminho de volta, não sei quem está ao meu lado; mas fecho os olhos e me sinto bem. Então fico, até quando precisar correr de novo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

COMO ESQUECER

Era quase fim de semana, fim de tarde já anoitecendo. Andava meio devagar, talvez por causa das sacolas amarelas que carregava encostadas nas pernas, talvez para evitar que os sapatos novos machucassem mais os pés. Estava muito cansada e já contava os passos entre a esquina seguinte e a porta de casa, a porta do banheiro e o pequeno espaço debaixo do chuveiro. Andava assim, meio trôpega, bêbada de tanto pensar nos últimos dias, nem tristes, nem ensolarados; andava pensando em como mudar alguma coisa e deixar que a mudança ocorresse de vez. Foi quando deu de cara com o letreiro num desses outdoors reduzidos que mudam as propagandas a cada minuto. Bem à sua frente, as letras se jogaram, grandes e brancas, saltando do fundo preto: “COMO ESQUECER”. Só isso, em letras garrafais. Nem um ponto final, nem uma exclamação, nenhuma interrogação. Somente as duas simples palavras. Logo pensou em uma pergunta: como se esqueceria? E então pensou no que era preciso esquecer: “como esquecer tudo isso que tenho tentado e que preciso de vez deixar lá atrás, lá onde se fecham os sacos plásticos e lançam-nos nos lixos que poluirão nossas águas? Como descolar os pensamentos dos sentimentos tão presentes que as lembranças deixavam pingar entre as brechas dos dias? Como começar outra história, outro capítulo, outro filme, se a trilha sonora da cena anterior ecoava nos ouvidos surdos da madrugada?”

Atônita, parou frente ao cartaz tentando descobrir o que, afinal de contas, ele estava divulgando. Esperou, esperou, esperou. As letras iam e viam, mas nada de novo aparecia, nenhum telefone para contato, nenhum nome de espetáculo, nenhum endereço de loja. Nada. Por pouco as sacolas não lhe caíram das mãos. Por pouco não desfaleceu e tombou na calçada. Por muito, muito pouco, não se ajoelhou diante do brilho da frase implorando uma resposta qualquer. Por pouco não perdeu os sentidos e a vontade de seguir adiante.

Agora caminhava rapidamente, correndo para a casa onde sabia que estavam suas memórias. Todas as lembranças que aos poucos jogava fora com a mudança dos móveis, as fotos novas na parede, novas músicas no som. Ainda tentou não pensar no letreiro, mas aquilo a perseguiu por alguns dias. “Como esquecer”, pensava consigo. E tentava, inutilmente, achar a pontuação certa que desse sentido – e fim – a tão inquietante questão.

domingo, 15 de agosto de 2010

O dia em que Pedro se foi

Era domingo. Era dia dos pais. Era agosto. Inverno. Um pouco de calor em casa e muita chuva aqui dentro. O dia demorou a passar e cheguei a pensar em fugir de casa. Mas estava sozinha.

Chorei um pouco. Era o cansaço. Era o medo. E a saudade. Ri um pouco, depois. Com a amizade e as bobagens ao telefone. Era quase noite e uma vontade de dormir carregava a cabeça e os pensamentos. Era o vento.

Telefone. Só pra saber, só pra ter notícia, só pra ouvir a voz. Ela estava embargada, trêmula. A mãe soube que o filho morrera. De repente. Estava longe dela. Longe de todos. Muito longe de mim já havia algum tempo. Ainda não tinha detalhes, era só isso: Pedro morreu.

Era meia-noite e a cama pareceu maior do que sempre. A luz apagada trouxe uma escuridão maior que tudo. Era o tempo. Era o susto. O silêncio.

E nunca mais mensagens de bom dia, boa semana, boa sorte. Nunca mais o sorriso largo e o sonho de artista. Um vazio, enorme, enorme por aqui. O pai dele deve estar gostando da companhia, a visita inesperada em dia de celebração. Os que ficaram estão sem entender. Só com a tristeza, a lembrança e todas as saudades. Era muito jovem. Era um menino. Não é mais.

sábado, 31 de julho de 2010

Desencontros


- Eu estava lhe esperando.
- Eu não falei que viria. Falei?
- Ah!! Você e suas perguntas....
- Mas esperou por que?
- Não deveria?
- Eu não disse que viria. Não precisava.
- Sim, mas eu esperei porque eu quis. Só. Eu que quis. Você viria de todo jeito.
- É.
-Então pronto. Já posso ir.
- Mas já?
- Já. Você já chegou. Posso ir agora.
- Tá...
- Até.
- Quando?
- Sei não. Nem dá pra saber.
- Verdade.
- E você, vai pra onde?
- Não vou. Fico aqui. Esperando.