quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Se acabar


O mundo que se acabe se quiser
Já limpei a casa, perfumei meu quarto
Passei esmalte vermelho
Enchi a casa de flor
Tem cor e amor pra todo lado
Tem vida de sobra em cada canto
O mundo que se vire em desencanto
Ele que se vire se acabando.

Já comi todas as bolachas belgas
Já enchi a cara de chocolate e capuccino
Tomei meu chá, tomei meu banho quentinho
O mundo se acabar, que seja caladinho
Porque se eu estiver dormindo não quero perder o sono
Prefiro ficar sonhando a vê-lo desmoronando.

E se for cair, seu mundo, que caia pro lado de lá
Em cima de mim  já não dá
Porque tô com a roupa engomada, limpa cheirosa e passada
Vai que o mundo acaba...
Quero estar bem vestida, bonita e cabelo arrumado
Porque pode ser que nesse estado – de pura calamidade pública
Encontre um moço ajeitado, na fila do mundo acabado
E então já não tem mais desculpa:
O mundo acabou, não há culpa
Que segure meu amor tão guardado.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

MURMÚRIO DAS ÁGUAS



Cristal
Cristalina
A gota na minha retina
Cai lúcida
Calada e escorregadia
Vai pela pele do rosto encosta no lábio e bate no chão

Terra
Terreno seco
Secura de coração.
Preciso de água pra molhar esse piso
Pra molhar os meus olhos
Pra encharcar os meus sonhos
Pra inundar minh´alma que precisa de mar

Murmura o vento na minha janela
No meu farol
Murmura o rio que vejo de cima
Murmura a chuva que cai nas minhas costas
Murmura o sangue que corre lá dentro
Murmuram todas as águas de mim

Cristal
Cristalina a água da boca que beija vida
Que fala amor
Que canta força
Que grita o mundo
Bendita é a boca que se abre sem medo

Cristal
Cristalino sorriso que escorre feito cachoeira
Enche o rio e se joga no mar
Feliz do mar que se deixar navegar
Feliz da alma-água que navega sem rumo
Feliz do navegante que murmura com as ondas
Feliz da água que corre sem pressa de chegar

Fosse eu o mar infinito
Fosse eu um rio caudaloso
Fosse eu uma cachoeira
Fosse eu uma gota d´água
Fosse eu um pinguinho de chuva
Escorreria nos seus ouvidos todas as canções
Essas que não cantamos enquanto paramos para ouvir
O som
O doce soar
Das nossas águas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sabadinho


Dor de cabeça cansaço tristezinha de leve saudade de sempre lembrança do sonho noite agitada pão sem gosto
Café pra acordar chá pra acalmar fruta pra adoçar música pra lembrar prece pra esquecer
Palavra que não vem palavra guardada na boca boca sem beijo boca sem água boca sem fome
Olhar perdido olhar lembrado olhar profundo olhar sem fim olhar sem medo olhar sem tempo olhar de alma olhar encantado olhar sem mim
Suspiro desânimo raiva vontade flores na casa flores no jarro barro quebrado vento soprando peito apertado lua sorrindo frio gelado coração em desencanto
em descanso
em desalinho
pausa para ouvir o passarinho.


sábado, 10 de novembro de 2012

Outras notícias





O frio me dói a saudade.
A saudade me dá sono.
O sono renova meu corpo.
O corpo se esquenta em movimento.
O movimento desperta a alegria.
E a alegria me traz a força de ser feliz a cada dia.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Aqui


De vez em quando parece que não dá
De vez em quando parece que vai
E não vai
Aí você esquece, entrega e segue
E tudo acontece.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mandando notícias




Tem gente que pergunta, tem gente que quer saber de tudo, tem gente que nem sabe ainda. E pra quem espera, as notícias são frescas e frias. A névoa começa a chegar pela manhã. Às 7 ainda é noite e eu me viro de lado pra continuar sonhando. Às 8 e meia um vizinho começa a gritar de dor. Por tantos minutos fico a olhar o teto baixo de madeira, ouvindo os gemidos dolorosos do moribundo que nunca vi. Às 10 eu começo, sem hora de parar. O banho é quente e o café constante. Os doces, muitos. Também muitos os cheiros e barulhos de Lisboa. A fumaça do cigarro me irrita, muito, e eles fumam o dia todo. Nuns segundos dá tristeza, numas horas dá saudade e nesses tempos eu encho a alma de coisa boa: música criola, amigos de ontem, um samba pra lembrar do que é meu, rosas pra colorir a janela que vê o Tejo. Fado dá dor de cotovelo, dói até no coração que não sofre. De vez em quando dá vazio, quando não, só plenitude – paisagens novas, novos lugares, olhares, novo velho mundo que se renova. Novos movimentos me encantam: as danças negras que rolam por cá, as línguas que se misturam com as misturas do mar, os calouros vestidos em capas pretas a cantar pelas ruas da cidade. Ao contrário das apostas, não arrumei um português, nem gajo de terra alguma. Tenho visto muita gente bonita e gente feia também. Tenho visto muita gente de todo tipo. Não como direito, ando mais que as pernas, danço em castelos, leio no metrô. Uns marinheiros passam pela rua, umas senhoras estendem roupa no varal fora da janela. Minha coluna dói, meu dedo do pé melhora, os livros começam a se multiplicar na estante. Vou seguindo um bocadinho cansada, mas bem, bem feliz de estar bem por aqui. 

(Foto tirada no Castelo de Monsaraz)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Em laços




Te ver nessas palavras é quase um alívio.
Um suspiro de fundo musical enevoado
Neblina com cheiro de eucalipto
Laranja e jasmim
Lavanda na pele
Lava-se a alma.
Quase te sinto perto quando tão longe
De você nem sei
Nem digo o que sou
A verdade é que nada importa: nome-número-telefone
Passamos disso
Te encontro agora onde estou só comigo
Você, minha projeção, desdobramento de mim
E a beleza e a luz que me encantam-
Sim, agora eu posso saber
Sou eu em você.
Você em mim.

Quase me vejo nas suas letras
Porque somos pedaços de uma coisa só
Maior
Eterna
Esterno: Osso que ressoa o amor
A dor
O amor.
Quase me sou em você
Respiro e pronto.
Vazio que aquieta
Alma que acerta
E aceita
Aceito.
Saudade sem pressa
Ilusão que adormece.

Acende, cala e esquece
Acontece
Que já nos despertamos.
Me faz
dormir em paz.