Meu jardim é cheio de coisas: flores, folhas, bichos, terra, pedaços de madeira. Tem muitas cores. E muitos olhares. Daqui eu vejo a vida amanhecer azul ou entardecer laranja. Vejo sorrisos amarelos, abraços verdes, carinhos cor de sangue. E vejo a lua. Daqui eu vejo quase tudo, com a lente da cor da flor que eu escolho a cada dia. Aqui, minha vida é mais do jeito que eu quero, leve, bela, pingando amor com o orvalho das frescas manhãs. Como é doce, como é gostosa a vida, olhando daqui.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Pela vida inteira
Muitas pessoas passam pela nossa vida, a todo o tempo, mas existem algumas que seria bom ter por perto pra sempre. São seres especiais, por motivos diversos, cada um com seu tesouro, que a gente simplesmente quer para o resto da vida. Pessoas que conhecemos pouco, outras que conhecemos tanto que, se fôssemos mais sensatos, seria até melhor mantê-las distantes. Mas exatamente por isso, por conhecer demais, que precisamos que estejam conosco. Dessas, tenho alguns poucos grandes amigos. Não preciso citar nomes, eles sabem quem são. Fazem tão parte da minha história que seria injusto se não estivessem presentes nas coisas que ainda tenho a viver. E “presente” nem sempre quer dizer “perto”. Às vezes quer dizer que nos falaremos ao telefone e contaremos as novidades, ou que nos encontraremos no final do ano para rir juntos das aventuras anuais, nossas e dos nossos outros amigos.
Existem outras pessoas, aquelas que conhecemos pouco, que acabamos de conhecer e que, sabe-se lá porque, gostamos “de graça”. É, de graça, sem fazer força, sem precisar de motivos. Gostamos e pronto. Nem sempre elas ficam sabendo o quanto nos fazem bem, nem sempre temos coragem (ou cara-de-pau) de chegar e falar: “Cara, eu gosto muito de você!”. Não falamos porque logo perguntariam o porquê. E não temos a resposta. Mas fato é que essas pessoas marcam nossa vida, ou pelo menos um momento delas, nem precisa ser um momento tão importante. Algumas passam, vão embora, escapam com o vento do outono soprando as folhas amareladas para longe. Nunca mais as encontramos, nunca mais temos notícias, mas sentimos saudades. E quando pensamos, vem aquele desejo: como queria essa pessoa na minha vida! Seja uma amizade, um amor, um colega de trabalho. Elas fariam diferença.
Nem sei porque pensei nisso hoje. Talvez por ter me encontrado há poucos dias com grandes amigos que estão na minha vida há mais de 10 anos. Talvez por querer encontrar alguns colegas que conheci há pouquíssimo tempo, mas que me deixam tão alegres em sua presença; talvez por estar perdendo pessoas com quem imaginei viver muitos anos; talvez por lembrar das pessoas que perdi sem perceber, que passaram por mim, fizeram um bem danado pra minha alma, mas que hoje nem sei que corte de cabelo usam. Talvez porque penso demais.
Melhor mesmo é se acostumar com o ir e vir, o abrir e fechar de portas que fazem no nosso coração, esses tantos homens e mulheres que nos aparecem todos os dias. Melhor é guardar o bem que cada um nos faz, cuidar para que fiquem, e se não ficarem, saber abrir os braços para dizer adeus aos que partem, e receber com alegria os que chegam. E mais importante: dar o melhor de si, para que todos queiram ter você por perto pela vida inteira.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Band-aids na alma

Ainda bem que existem os amigos, os jantares, os filmes, os livros de contos, presentes de quem tem algum carinho... ainda bem que a música acalma e as festas nos divertem. Ainda bem que o sol volta a nascer. São pequenos curativos, esses band-aids que tentamos colocar nas feridas que nos fazem, grandes ou pequenas, mas que doem muito por serem feitas na alma, lá onde não há escudo nem grade de ferro que proteja nossa solidão. Vida, enfim... sofrer, por enquanto. O amor já, já passa.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Essa vida de cabrocha...
Dia nacional do Samba! Só o Rio Janeiro mesmo, em plena quarta-feira, uma festa como essa, nesse calor todo! E como não posso ficar de fora, afinal, fui abraçada com todos os tentáculos por essa “instituição” que constitui o samba carioca, faço aqui minhas homenagens. Mas não aos sambistas famosos, esses cujas letras serão hoje entoadas como hinos nos trens, verdadeiras preces das testas suadas dos malandros e mulatas que sambalançam ao som dos tambores.
Rendo minha gratidão ao samba que ouvi primeiro, logo pequena, lá entre os morros de Minas, onde ninguém acredita que haja tanta ginga. Pois é, meus caros, Nova Era já teve escolas de samba. Tal cidadezinha sonolenta, com cara de poesia de Drummond (aliás, pertinho de Itabira), já foi palco de belas disputas carnavalescas, regadas a confete, serpentina e lança-perfume. Três pequenas escolas apenas, e uma acirrada competição que acabou por política ou sei lá por quê. A minha, de coração e sangue: Acadêmicos do Sagrada Família, o nosso Sagradão! Ai ai ai, quanta alegria ouvir o tio gritando: Olha o Sagradão aí, gente!!! Ui ui ui! Uma festa só.
E ali eu cresci, fins de semana no bairro da Sagrada Família, e eu acreditava que a tal família sagrada era a minha, afinal, tio carnavalesco, padrinho na bateria, avô na diretoria, a vó chefe das baianas e um bando de tias sambando de passistas, pensar o quê?... E deu no que deu. Sambei por lá, sambei em BH, e agora sambo aqui. Eta lelê! E de vez em quando dá aquela saudade dos famosos carnavais novaerenses, doces lembranças de infância. E pra matar a saudade, só caindo no samba, nessa dura sina de cabrocha mineiroca-com-cara-de-baiana, alegrando a alma e o corpo com os axés do nosso povo que sabe como ninguém transformar as dores em lindas melodias, exaltando o amor, denunciando as injustiças e clamando por dias melhores. Que venha o samba, hpje e sempre, que não morra, jamais, o tal do samba!
P.S.: A foto é uma das minhas preferidas dos meus tempos de cabrocha mirim. É de um dos bailes no Automóvel Clube, para onde ia toda “montada”, produzidíssima. Dizem que ganhei vários concursos, que a tal neguinha derretia todo mundo quando se requebrava feliz. Não me lembro disso, mas faço ideia.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Para alegrar a alma
Tenho estado triste ultimamente, coisa que não combina muito com os tons que escolhi para mim. Tempos difíceis, diriam, tempos difíceis... Mas nunca me acostumei com dias assim. Jamais concordei com a falta de sorrisos ao longo do dia, nem com a nebulosidade do olhar afoito atrás de uma alegriazinha qualquer. Na verdade, não combino com essas tristezas grandes, pesadas, que a vida insiste em trazer com o passar das horas. E tento não me acostumar, tento não acreditar que o céu seja cinza assim, pois afinal, ele não é. O céu é azul, pelo menos assim nos chega aos olhos. Uma nuvem aqui, outra ali, que desabam nas tardes quentes, molhando as costas doloridas, ossos feridos por uma tendinite, uma pancada leve, uma postura errada. Mas as nuvens passam. As minhas têm se demorado por aqui.
E pensando nisso, busco enganar a tal companhia traiçoeira com coisas leves que fazem minha alma sorrir. Coisas simples (sim, sou devota delas!) que têm servido de amuletos para que eu recupere as forças escassas dos meus braços. Minhas pequenas alegrias. Meus sorrisos de solidão. Eis algumas delas:
Correr no Parque do Flamengo – Como diz minha amiga, ali abre-se um portal. Pura verdade. Nada descreve o singelo encontro com a natureza, mato e mar. Uma viagem.
Tomar sorvete - Ai, eu me acabo. Não adianta, não consigo me livrar do paladar infantil e, sinceramente, nem quero. E agora descobri um de pistache, baratinho e delicioso! Um sonho.
Ouvir salsa - Infalível! Não há bode que resista ao som do bongô e uns passinhos ensaiados pelo corredor. E nas últimas semanas tenho escutado o cd “Rythms del mundo”, um projeto lindo que une os músicos do Buena Vista Social Club e diversos outros cantores. Uma delícia.
Ler coisa boa - Essa semana reli “As almas da gente negra”, de W. E. B. Dubois. É triste, mas fundamental. Poesia, sensibilidade, ideias necessárias. Uma pérola.
Sambar - Ah, claro, não poderia faltar. Outra tática infalível, que depois que o Rio de Janeiro me ganhou de vez, virou mania, necessidade básica. E super eficiente pra espantar as angústias dos fins de semana de solidão. Um desabafo.
Imaginar - Tá, nada original. Mas tenho que admitir que fechar os olhos e sonhar acordado ainda é a forma mais genial que inventaram para curar as dorzinhas do dia-a-dia. E é de graça. Um barato.
Abraçar - Não dá pra sair agarrando todo mundo que se vê, mas um abraço bem dado em um amigo, um colega, alguém a quem se queira bem é um remédio e tanto. Um conforto.
Cheiro bom - Também não dá pra ficar pondo o nariz em qualquer lugar (menos ainda em qualquer pescoço perfumado), mas sentir aquele cheirinho bom, seja de um creme novo ou alguém que passa por perto com ar de banho tomado, ou até mesmo o cheiro de roupa limpa, cheirinho de amaciante... ah, eu gosto. Uma gostosura.
Bom, tem algumas outras coisinhas, mas hoje fica por aqui. Pensei até em fazer mais listas como essa, servem ao menos para me lembrar quanta coisa boa existe aqui por perto, ao meu alcance, e às vezes me perco delas por me entregar demais aos percalços e desenganos que me tiram o sono. Tentarei lembrar mais vezes e fazer mais vezes feliz essa tão jovem alma, que se entristece ao cair da noite e se esquece quão bela é a lua.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
A vida que nunca chega
É uma constante infelicidade
Viver esperando o melhor
Como se o agora nunca fosse suficiente
Como se hoje não fosse o bastante
Como se amanhã tudo fosse mudar.
Viver desse jeito-
Na luta de quem nasceu sem sobrenome ou fortuna pra herdar
Quem tem que comer só pra enganar a fome
Vida de quem ganha pra pagar-
Viver assim pode não ser justo
É cruel como oferecer doce a uma criança
e depois dar-lhe as costas.
Mas se é assim... nem tanto se conformar
Nem tanto esperar
Porque ficar sonhando com o riso, chorando,
Não é sorrir.
Sonhar com o abraço, de braços cruzados,
Não é abraçar.
Plantar um jardim nos planos, durante as propagandas da tv,
Não é cultivar flores.
Esperar que a vida aconteça
Não é viver.
Triste espera, eterna esperança, puras crenças.
Querer que a chuva acabe e tudo se resolva
Esperar o próximo trem ou próxima estação
Esperar estar pronto para se ter a casa e o jardim.
Vontade de ser logo o que o tempo o tornará...
Essa espera cansa, como se a dor não tivesse cura
Como se o pão não alimentasse
Como se a vida nunca chegasse...
