quinta-feira, 13 de junho de 2013

Olhos e coração

Nada no peito que aperte
Nada na alma que aflija

Sou feita de nuvens nos olhos e ventos no coração

Desfeita de sustos
Sujeita a encantos
Fugida de medos
Atada em distâncias
Tecida em desejos
Morrida de amores
Crescida em sonhos, sorrisos e saudade

De resto, só fica a verdade
Meu caminho
A vida

Só fica uma casca de ferida
Um risco na pele
Um traço
E a alegria de sempre: leve e pousa
Nem borboleta nem mariposa
Nem espinho nem flor
Sou mais a raiz, a terra, a lama

Sou feita de água nos olhos e mares no coração

quinta-feira, 23 de maio de 2013


Cintila o céu de lua cheia
Clareia o mar ao infinito, onde os olhos cansados descansam lágrimas
Divide o tempo o ir e o vir, o ser e o não ser, o que foi e o que é
Permeia a vida inteira esse gosto de saudade, essa tristeza mansa, esse querer guardado que seca
Passear as ideias no passado é brincadeira antes de dormir
Até que o sono chegue
Até que o sonho alegre
Até que a  noite acabe
Inicia o dia um outro modo de estar, outra coragem, outra memória
Outro dilema entre o lembrar e o esquecer, lembrar e viver
Estica sobre as costas esse peso de tantas vidas
O peso de todas as histórias, todos os caminhos, tantos descaminhos

Irrita a falta de fome
Irrita o amor sem nome
Imita o espelho o rosto disforme

Acorda a pétala orvalhada
Boceja o canário sem árvore
Murmura a gota sem rio
Respinga a chama sem brio
Esfria o café sem xícara
Estraga o pão sem boca
Enruga a mão sem afeto
Descama a pele sem beijo
Descasca a unha sem vida
Peleja o grão sem amor

Cerceia o tempo a vontade
Morre o jardim ao tempo de desfolhar as verdades
Cada passo dado é a morte que se enlaça um pouco mais
É um salto frente à liberdade
É o fundo dos olhos dos meus filhos a pingar a vida nos frutos que virão
Mareia o corpo no balanço dos silêncios
Calam as tremidas vozes incertas de si mesmas
Calam os vazios profundos que ensaiam despedidas
Calam as gargantas roucas de pedir em vão

Relaxa o vento em meus ouvidos
Floresce o verso em meus cabelos
Cantarolam as notas nos meus dedos
Deságuam segredos em meus cílios
Morrem caminhos em meus ossos
Que se petrificam
Pedras que ficam
Pedras que caminham lado a lado
Pedras que um dia serão pó
Quando eu não for mais
Nada mais que poeira de fim de estrada
Eu poeira eu caminho eu nada eu pó
Cada deus por si e só.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Jesus tomando sol

Vendo hoje as manifestações religiosas da sexta-feira da Paixão, vendo as fotos terríveis de Jesus sangrando  postadas nas redes sociais, fico pensando nessa adoração da dor e da morte típica desse mundo. Sempre comento com amigos sobre um texto que li há um tempo atrás, sobre essa importância dada ao sofrimento, ao invés da valorização do amor e da felicidade. Com todo o respeito ao cristianismo, eu que já fui católica apostólica romana (!), hoje prefiro exaltar a alegria do Jesus que dançava, tomava vinho, abraçava e tocava nas pessoas, amava Madalena e adorava as criancinhas. Temos, sim, dor e sofrimento ao longo da vida. Mas temos também muitas alegrias. Não vamos esquecê-las, afinal, se é pra falar da "Paixão" de Cristo, que seja a paixão que nos move para o futuro, a paixão dos seres apaixonados pela vida e pelos outros, essa paixão que bagunça o estômago e nos dá coragem de viver!

Segue o texto, de Antonio Prata, que reproduzo aqui depois de vasculhar meus emails antigos. Vale muito a pena reproduzir a ideia. Vai que cola?!


JESUS TOMANDO SOL


Por que amor e felicidade são menos importantes que dor e sofrimento?


 Você já reparou que somente histórias envolvendo alguma forma de sofrimento nos livram de um compromisso? Se uma pessoa chega atrasada na escola, ao trabalho ou a um jantar, diz que foi um pneu que furou, uma carreta virada na avenida, o velório da tia-avó ou a gripe do periquito que a atrapalhou.
Sempre problemas. Imagine só se uma amiga sua chega no meio da aula e explica feliz da vida, para a professora: "no caminho eu encontrei um cara lindo, a gente começou a conversar e quando eu vi, já tinham se passado quarenta minutos... Posso entrar?"

Não ía dar certo. Já se ela aparece dizendo: "Putz, professora, o pneu do ônibus furou; o motorista foi trocar e teve um torcicolo e não conseguia se mexer; nesse momento os assaltantes chegaram e me fizeram de refém; minha mãe foi tirar dinheiro pra pagar o resgate e a máquina engoliu o cartão. Tivemos que pedir dinheiro emprestado para minha avó. Por isso cheguei agora". Aí sim ela poderia assistir a aula. Nessas e noutras situações tenho a impressão de que vemos o sofrimento e a dificuldade como mais nobres do que a felicidade e a facilidade. Já presenciei uma conversa em que as pessoas competiam para ver quem sofria mais. Uma disse que pegava dois ônibus até a faculdade. A outra falou: "Eu tenho que pegar dois ônibus e um trem". Uma terceira sorriu, porque a parada estava ganha: "E eu tenho que pegar dois ônibus, um trem, ando dois quilômetros e tenho joanetes". Eu, que moro ao lado, vou a pé e não tenho joanetes fiquei quieto, envergonhado.
Não é à toa que o sofrimento é tão valorizado em nossa sociedade. Afinal de contas, há dois mil e quatro anos o nosso maior símbolo é um homem pregado na cruz. O filho de Deus, que morreu por nós. Por isso, dizem os católicos, temos que ter uma vida de sofrimento e humildemente aceitar desgraças. Que horror! Imagine que bom se em vez do crucifixo cultuássemos um Jesus tomando banho de rio? Ou jogando bola? As pessoas levariam no pescoço pingentes do filho de Deus se preparando para um mergulho, tomando sol ou andando numa bicicleta! Melhor ainda, se nos altares Jesus estivesse dando um beijo apaixonado em Maria Madalena, sua namorada. Aí, ao passarmos por uma igreja ou um cemitério, não faríamos o sinal da cruz, mas daríamos um beijo. E aprenderíamos , desde criancinhas que o filho de Deus veio ao mundo beijar o próximo e mostrar que o amor e a felicidade eram mais importantes que a dor e o sofrimento. Se fosse assim, quando a garota atrasada contasse a história do garoto lindo e da conversa, a professora daria um sorriso e a convidaria a entrar, sabendo que aquela aluna já havia aprendido o mais importante sobre a sua vida.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Crise geográfica



O estado de não estar às vezes me parece interessante. Às vezes acho que não. Mas é.

Estar com sua vida toda dentro de malas e caixas, escolhendo o próximo destino, a próxima morada, calculando quilômetros e aluguéis, vontades e necessidades, sonhos e realidade. A verdade que me dói é mesmo essa precisão de estar aqui, nesse mundo de coisas e contas bancárias, onde é preciso preocupar-se mais com o tamanho do salário no começo do mês do que com os banhos de cachoeira que preciso tomar para ser feliz. Precisar pensar o melhor caminho, contar as vantagens e desvantagens de viver onde se escolhe – a casa com jardim perto do mar que ainda é ilusão – é uma necessidade que desumaniza a luz e a sede de alegria e leveza que pulsa no peito.

Estar não estando em lugar nenhum é bom para testar o nível de paciência, consigo e com os outros, e principalmente para se olhar nos olhos e perguntar, sinceramente: o que você quer? O que eu quero? O que você, que sou eu, quer de verdade?E com essa, outras perguntas vão surgindo e traçando um mapa-múndi com interrogações e possíveis respostas corretas. Se é que existem respostas corretas. Se é que existem respostas...

Estar não estando em lugar nenhum é ter que encarar este não-lugar como tudo que se tem de fato. É aprender, na marra, que moramos no mundo e isso basta. Ok, eu tenho essas malas, esses livros e é tudo. Para onde? Para quê?

E mais: é aceitar não se identificar com nada – música, roupa, penteado, comida – nada combina, nada está bom, nada se ajusta. Tudo está fora do lugar. As memórias, as vivências e a imaginação se misturam, o tempo se confunde com ele mesmo e você se perde entre o que foi passado e o que será no futuro, já que o presente é um vazio sem igual. O que será lembrado e o que será esquecido? O que segue na bolsa e o que pesa demais para ser levado? São essas as escolhas e depois delas, o caminhar eterno de quem só tem a certeza de que a felicidade está de portas abertas na próxima paragem. Seja ela onde for.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Se acabar


O mundo que se acabe se quiser
Já limpei a casa, perfumei meu quarto
Passei esmalte vermelho
Enchi a casa de flor
Tem cor e amor pra todo lado
Tem vida de sobra em cada canto
O mundo que se vire em desencanto
Ele que se vire se acabando.

Já comi todas as bolachas belgas
Já enchi a cara de chocolate e capuccino
Tomei meu chá, tomei meu banho quentinho
O mundo se acabar, que seja caladinho
Porque se eu estiver dormindo não quero perder o sono
Prefiro ficar sonhando a vê-lo desmoronando.

E se for cair, seu mundo, que caia pro lado de lá
Em cima de mim  já não dá
Porque tô com a roupa engomada, limpa cheirosa e passada
Vai que o mundo acaba...
Quero estar bem vestida, bonita e cabelo arrumado
Porque pode ser que nesse estado – de pura calamidade pública
Encontre um moço ajeitado, na fila do mundo acabado
E então já não tem mais desculpa:
O mundo acabou, não há culpa
Que segure meu amor tão guardado.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

MURMÚRIO DAS ÁGUAS



Cristal
Cristalina
A gota na minha retina
Cai lúcida
Calada e escorregadia
Vai pela pele do rosto encosta no lábio e bate no chão

Terra
Terreno seco
Secura de coração.
Preciso de água pra molhar esse piso
Pra molhar os meus olhos
Pra encharcar os meus sonhos
Pra inundar minh´alma que precisa de mar

Murmura o vento na minha janela
No meu farol
Murmura o rio que vejo de cima
Murmura a chuva que cai nas minhas costas
Murmura o sangue que corre lá dentro
Murmuram todas as águas de mim

Cristal
Cristalina a água da boca que beija vida
Que fala amor
Que canta força
Que grita o mundo
Bendita é a boca que se abre sem medo

Cristal
Cristalino sorriso que escorre feito cachoeira
Enche o rio e se joga no mar
Feliz do mar que se deixar navegar
Feliz da alma-água que navega sem rumo
Feliz do navegante que murmura com as ondas
Feliz da água que corre sem pressa de chegar

Fosse eu o mar infinito
Fosse eu um rio caudaloso
Fosse eu uma cachoeira
Fosse eu uma gota d´água
Fosse eu um pinguinho de chuva
Escorreria nos seus ouvidos todas as canções
Essas que não cantamos enquanto paramos para ouvir
O som
O doce soar
Das nossas águas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sabadinho


Dor de cabeça cansaço tristezinha de leve saudade de sempre lembrança do sonho noite agitada pão sem gosto
Café pra acordar chá pra acalmar fruta pra adoçar música pra lembrar prece pra esquecer
Palavra que não vem palavra guardada na boca boca sem beijo boca sem água boca sem fome
Olhar perdido olhar lembrado olhar profundo olhar sem fim olhar sem medo olhar sem tempo olhar de alma olhar encantado olhar sem mim
Suspiro desânimo raiva vontade flores na casa flores no jarro barro quebrado vento soprando peito apertado lua sorrindo frio gelado coração em desencanto
em descanso
em desalinho
pausa para ouvir o passarinho.