terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mandando notícias




Tem gente que pergunta, tem gente que quer saber de tudo, tem gente que nem sabe ainda. E pra quem espera, as notícias são frescas e frias. A névoa começa a chegar pela manhã. Às 7 ainda é noite e eu me viro de lado pra continuar sonhando. Às 8 e meia um vizinho começa a gritar de dor. Por tantos minutos fico a olhar o teto baixo de madeira, ouvindo os gemidos dolorosos do moribundo que nunca vi. Às 10 eu começo, sem hora de parar. O banho é quente e o café constante. Os doces, muitos. Também muitos os cheiros e barulhos de Lisboa. A fumaça do cigarro me irrita, muito, e eles fumam o dia todo. Nuns segundos dá tristeza, numas horas dá saudade e nesses tempos eu encho a alma de coisa boa: música criola, amigos de ontem, um samba pra lembrar do que é meu, rosas pra colorir a janela que vê o Tejo. Fado dá dor de cotovelo, dói até no coração que não sofre. De vez em quando dá vazio, quando não, só plenitude – paisagens novas, novos lugares, olhares, novo velho mundo que se renova. Novos movimentos me encantam: as danças negras que rolam por cá, as línguas que se misturam com as misturas do mar, os calouros vestidos em capas pretas a cantar pelas ruas da cidade. Ao contrário das apostas, não arrumei um português, nem gajo de terra alguma. Tenho visto muita gente bonita e gente feia também. Tenho visto muita gente de todo tipo. Não como direito, ando mais que as pernas, danço em castelos, leio no metrô. Uns marinheiros passam pela rua, umas senhoras estendem roupa no varal fora da janela. Minha coluna dói, meu dedo do pé melhora, os livros começam a se multiplicar na estante. Vou seguindo um bocadinho cansada, mas bem, bem feliz de estar bem por aqui. 

(Foto tirada no Castelo de Monsaraz)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Em laços




Te ver nessas palavras é quase um alívio.
Um suspiro de fundo musical enevoado
Neblina com cheiro de eucalipto
Laranja e jasmim
Lavanda na pele
Lava-se a alma.
Quase te sinto perto quando tão longe
De você nem sei
Nem digo o que sou
A verdade é que nada importa: nome-número-telefone
Passamos disso
Te encontro agora onde estou só comigo
Você, minha projeção, desdobramento de mim
E a beleza e a luz que me encantam-
Sim, agora eu posso saber
Sou eu em você.
Você em mim.

Quase me vejo nas suas letras
Porque somos pedaços de uma coisa só
Maior
Eterna
Esterno: Osso que ressoa o amor
A dor
O amor.
Quase me sou em você
Respiro e pronto.
Vazio que aquieta
Alma que acerta
E aceita
Aceito.
Saudade sem pressa
Ilusão que adormece.

Acende, cala e esquece
Acontece
Que já nos despertamos.
Me faz
dormir em paz.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Movimento


Aprendo a colocar o coração nos pés quando danço.
Fazer o corpo rodar é mais fácil que trocar a alma de casa, que avançar um degrau
Já não dou os mesmos passos de antigamente
Já não se tocam canções como antigamente
Já não há corações como os de antigamente.

Hoje me faço mais completa porque já sei o que não querer
Aprendo a colocar o coração nas mãos quando encosto
Colocar o coração nos braços quando abraço
Colocar o coração na boca antes de sorrir e falar e cantar
Já não me falo como antigamente.

Aprende-se com o tempo, só e unicamente com ele
Não se tem mais tempo como antigamente
Quando somente o sol a lua ou a chuva
E tudo em seu lugar.

Agora, justamente agora
no instante em que ouço o tilintar da gotas na janela
Sem chuva, sem água, sem verão
Justamente quando o vento faz a curva do outro lado da minha orelha
Uma pétala cai.

A terra se renova. A flor se renova.
Um casulo que se fecha, uma borboleta que nasce
um girassol que gira e só.

domingo, 24 de junho de 2012

Não tem lugar pra você



Era um banco. Ou poltrona, nem lembro.
Cinema ou ônibus, avião, consultório de dentista. Nem importa.
Sentei e fiquei sentada. Fui porque tinha que ir mesmo. Eu tinha que ir e fui e estava ali sentada.
“Posso me sentar?”, ouvi bem de perto.
Nem olhei. Continuei no meu silêncio quebrado com a doçura da minha própria voz: “Não tem lugar pra você.”
E continuei. Feliz da vida.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O que fazer nos dias



De vez em quando
Eu calo
De vez em quando
Eu falo
De vez em quando
Eu penso
De vez em quando
Dispenso
Só de vez em quando
Descanso.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Para Roberto


Hoje é aniversário do meu irmão mais velho, o primogênito da família. Poderia só mandar os parabéns, mas acordei inspirada. É que Beto faz tanto parte da minha vida e do melhor dela, eu acredito, que quando penso em mim criança, nas alegrias que me fizeram ser o que me tornei, Beto está presente.

Aquela máxima que diz “companheiro é companheiro, filho da puta é filho da puta” compartilhamos bem cada sentença dela. Quando nos acompanhávamos era de verdade: nos banhos de chuva, nas brincadeiras de polícia e ladrão pulando pelas camas, nas casinhas feitas de cortina no sofá, escorregando pelos barrancos nos cascos daquelas árvores enormes (que até hoje não sei o nome), arrebentando os dedos nos carrinhos de rolimã... E quando era pra ser FDP, ele era! Era um tal de contar mentira pra mãe e me incriminar sem razão, me bater abusando do seu poder de menino – e mais velho! – fazendo aquela cara emburrada que só ele sabe fazer quando quer criticar alguém. Ah, sem falar, claro, de quando adolescentes, empatar os garotos que porventura ousaram desejar a irmanzinha dele, singela, doce e pura. Hahahahahahaa!  (Conselho para as meninas: evitar curtir baladinhas e afins com irmãos ciumentos. Você não pega ninguém, ou melhor, Ninguém te pega!)

Enfim, muitas e muitas historinhas me veem na lembrança e era só pra fazer uma homenagem. Uma homenagem que vem cheia de saudade, cheia de desejos de que esteja tudo bem nesse coração que há anos vive longe de mim. Só um jeitinho mineiro de dizer que estou aqui pensando em você e agora, neste outro ser que é um pedaço seu, pedaço nosso, porque é a primeira gerada depois de nós. Só algumas palavras para dizer que estou feliz por vocês, com vocês e mesmo de longe, fico espiando pra ver se está tudo bem. E quando não estiver, eu estarei aí, mais perto.

E que esquisita essa vida, né?! Às vezes acho tudo estranho, isso de crescer e dar conta dessa vida chata de adulto, complicada e doída na maioria das vezes. Mas a gente que acredita em algo maior segue confiante e vai em frente! E o que lamento mesmo é não ter mais perto os irmãos que a vida me deu, aqueles com quem dividia os biscoitos recheados. Sim, eles fazem falta. Fazem falta porque com irmão a gente pode brigar de verdade, e o amor continua. Para irmão a gente pode contar as verdades, porque o amor continua. Com irmão a gente pode encarar todo mundo, porque diante dos outros, os irmãos formam um exército – mexeu com um, mexeu com todos! Ah, e como é bom saber disso.

Então, meu irmão, que fique registrado o cumprimento da mais apaixonada das irmãs, a que mora longe, a artista, a que estuda muito, mas que nunca deixou de pensar em vocês. Não desejo parabéns hoje, mas a vida toda, desde sempre até a eternidade. Não desejo só felicidades, mas todas as felicidades possíveis e impossíveis. Desejo que tenha ternura para encarar a vida, que tenha sabedoria para encarar as dores, que tenha amor, muito muito amor, de todos os lados. Que você tenha muita força, essa força que eu peço a Deus todos os dias para mim e pros que precisam. E sinceramente espero que você seja uma pessoa melhor a cada dia, melhor para si mesmo, generoso e gentil, melhor para os outros e melhor para criança que te espera. Feliz, feliz, feliz aniversário! Que o ciclo que se renova hoje venha com muita luz, afeto e amor! E não precisa repetir: eu te amo, cara!

(Na foto: nosso primeiro de muitos carnavais. Ele ali, tomando conta! :) )

sábado, 7 de abril de 2012

Páscoa em família


Jorge levou um susto quando entrou no supermercado e se deparou com um teto todo colorido com ovos de chocolate. Todas as formas e tamanhos. Parou e pensou, tentou se lembrar do dia, perguntou a alguém que passava.
- Que dia é hoje?
Mal tinha acabado o verão, ele estava aliviado com o fim do carnaval, fim das viagens, bagunças, “gastação” de dinheiro, feliz em voltar para a velha e boa rotina de sempre. E viu sua tranquilidade (ainda por cima sem trema!) ir embora ao se dar conta de que dali a pouco seria Páscoa. “Ai ai ai ai ai!!! De novo!”. Pensou com seus botões. Não adiantava, os supermercados, as lojas e a tv não o deixariam esquecer mais um feriado, o melhor momento para se vender coisas, comidas, bebidas e o que mais se poderia consumir...
Chegou em casa e fez um distraído comentário com Vanda:
-Menina, você acredita que já estão em clima de Páscoa? O mercado tá parecendo um carro de escola de samba, todo cheio de alegoria, uma coisa horrorosa!
- É mesmo, querido, temos que pensar no que fazer no feriado desse ano.
- O que fazer?? Como assim “o que fazer”? Você ainda quer fazer alguma coisa depois desse carnaval na praia?
- Jorge, esqueceu que suas sobrinhas vem passar o feriado aqui em casa? Combinei com sua irmã, elas devem ficar toda a Semana Santa...
- Semana Santa com as meninas da Alice? Meus Deus, quero ver o que vai ter de santa nisso...
Saiu, enquanto a mulher guardava as compras e foi pensando como iria enrolar as sobrinhas desta vez. As garotas certamente iriam pedir aqueles malditos e caríssimos ovos de chocolate e, como eram os “tios mais legais” que elas tinham, não poderiam decepcioná-las. Mas Jorge estava realmente sem paciência, sem ânimo e sem dinheiro para mais um feriado de festa, muita gente falando ao mesmo tempo, aquele almoço com sogra, cunhados, etc., etc. e mais etc. Fazer o quê?
Na semana anterior combinou com esposa que traria menos peixe dessa vez. O preço do bacalhau tinha aumentado, o vinho também estava mais caro. Pensou em pescar uns peixinhos no rio da cidade, mas desistiu só de pensar na quantidade de lama e lixo que havia na água. Bom, deveria diminuir o tamanho da torta e da panela de peixe ensopado. Pra isso deveriam diminuir o número de pessoas no almoço.
- Tá maluco, né, Jorge? Como é que vou falar pra mamãe não convidar todo mundo? Fazemos isso há anos, esqueceu? ANOS! Não dá pra mudar a tradição da família só porque vai faltar peixe. Você tem cada ideia...
Primeiro plano descartado. As meninas chegaram e a casa numa animação que só vendo. Um dia ele chegou bufando, quando as crianças estavam na sala, e falou bem alto:
- Galera, esse ano o coelhinho da Páscoa não vem!
O filho pré-adolescente fez cara de quem não entendeu nada, as meninas fizeram cara de choro.
- Como assim não vem, tio Jorge? E os nossos ovos?
- Então, o titio conversou bastante com o coelhinho e ele falou que tá com problemas de família. A senhora coelha vai ter filhinhos e ele não pode deixar ela sozinha, não é mesmo?
- Mas quem vai trazer nossos ovos de chocolate?
- Ninguém, ora! É o que estou dizendo.
O filho deu uma gargalhada e as meninas começaram a chorar.
- Calma, meus amores, vamos pensar diferente. Afinal, Páscoa não é chocolate. Pensem no renascimento... Vocês sabiam que antigamente se presenteava com ovos de verdade pintados à mão? Podemos recuperar esse costume, o que acham?
As meninas saíram correndo, chorando, chamando pela mãe. Vanda olhava encostada na porta, com aquela cara que Jorge bem conhecia. Lá vinha bronca:
-Você enlouqueceu, meu filho? Olha o que fez com as meninas, como é que vou explicar pra sua irmã?
Sem titubear e sem se entregar ao olhar furioso de Vanda, Jorge deu um beijo na testa da esposa e disse calmamente:
- Contenção de gastos, querida. Pelo menos vai ser uma Páscoa diferente...