quarta-feira, 23 de maio de 2012

Para Roberto


Hoje é aniversário do meu irmão mais velho, o primogênito da família. Poderia só mandar os parabéns, mas acordei inspirada. É que Beto faz tanto parte da minha vida e do melhor dela, eu acredito, que quando penso em mim criança, nas alegrias que me fizeram ser o que me tornei, Beto está presente.

Aquela máxima que diz “companheiro é companheiro, filho da puta é filho da puta” compartilhamos bem cada sentença dela. Quando nos acompanhávamos era de verdade: nos banhos de chuva, nas brincadeiras de polícia e ladrão pulando pelas camas, nas casinhas feitas de cortina no sofá, escorregando pelos barrancos nos cascos daquelas árvores enormes (que até hoje não sei o nome), arrebentando os dedos nos carrinhos de rolimã... E quando era pra ser FDP, ele era! Era um tal de contar mentira pra mãe e me incriminar sem razão, me bater abusando do seu poder de menino – e mais velho! – fazendo aquela cara emburrada que só ele sabe fazer quando quer criticar alguém. Ah, sem falar, claro, de quando adolescentes, empatar os garotos que porventura ousaram desejar a irmanzinha dele, singela, doce e pura. Hahahahahahaa!  (Conselho para as meninas: evitar curtir baladinhas e afins com irmãos ciumentos. Você não pega ninguém, ou melhor, Ninguém te pega!)

Enfim, muitas e muitas historinhas me veem na lembrança e era só pra fazer uma homenagem. Uma homenagem que vem cheia de saudade, cheia de desejos de que esteja tudo bem nesse coração que há anos vive longe de mim. Só um jeitinho mineiro de dizer que estou aqui pensando em você e agora, neste outro ser que é um pedaço seu, pedaço nosso, porque é a primeira gerada depois de nós. Só algumas palavras para dizer que estou feliz por vocês, com vocês e mesmo de longe, fico espiando pra ver se está tudo bem. E quando não estiver, eu estarei aí, mais perto.

E que esquisita essa vida, né?! Às vezes acho tudo estranho, isso de crescer e dar conta dessa vida chata de adulto, complicada e doída na maioria das vezes. Mas a gente que acredita em algo maior segue confiante e vai em frente! E o que lamento mesmo é não ter mais perto os irmãos que a vida me deu, aqueles com quem dividia os biscoitos recheados. Sim, eles fazem falta. Fazem falta porque com irmão a gente pode brigar de verdade, e o amor continua. Para irmão a gente pode contar as verdades, porque o amor continua. Com irmão a gente pode encarar todo mundo, porque diante dos outros, os irmãos formam um exército – mexeu com um, mexeu com todos! Ah, e como é bom saber disso.

Então, meu irmão, que fique registrado o cumprimento da mais apaixonada das irmãs, a que mora longe, a artista, a que estuda muito, mas que nunca deixou de pensar em vocês. Não desejo parabéns hoje, mas a vida toda, desde sempre até a eternidade. Não desejo só felicidades, mas todas as felicidades possíveis e impossíveis. Desejo que tenha ternura para encarar a vida, que tenha sabedoria para encarar as dores, que tenha amor, muito muito amor, de todos os lados. Que você tenha muita força, essa força que eu peço a Deus todos os dias para mim e pros que precisam. E sinceramente espero que você seja uma pessoa melhor a cada dia, melhor para si mesmo, generoso e gentil, melhor para os outros e melhor para criança que te espera. Feliz, feliz, feliz aniversário! Que o ciclo que se renova hoje venha com muita luz, afeto e amor! E não precisa repetir: eu te amo, cara!

(Na foto: nosso primeiro de muitos carnavais. Ele ali, tomando conta! :) )

sábado, 7 de abril de 2012

Páscoa em família


Jorge levou um susto quando entrou no supermercado e se deparou com um teto todo colorido com ovos de chocolate. Todas as formas e tamanhos. Parou e pensou, tentou se lembrar do dia, perguntou a alguém que passava.
- Que dia é hoje?
Mal tinha acabado o verão, ele estava aliviado com o fim do carnaval, fim das viagens, bagunças, “gastação” de dinheiro, feliz em voltar para a velha e boa rotina de sempre. E viu sua tranquilidade (ainda por cima sem trema!) ir embora ao se dar conta de que dali a pouco seria Páscoa. “Ai ai ai ai ai!!! De novo!”. Pensou com seus botões. Não adiantava, os supermercados, as lojas e a tv não o deixariam esquecer mais um feriado, o melhor momento para se vender coisas, comidas, bebidas e o que mais se poderia consumir...
Chegou em casa e fez um distraído comentário com Vanda:
-Menina, você acredita que já estão em clima de Páscoa? O mercado tá parecendo um carro de escola de samba, todo cheio de alegoria, uma coisa horrorosa!
- É mesmo, querido, temos que pensar no que fazer no feriado desse ano.
- O que fazer?? Como assim “o que fazer”? Você ainda quer fazer alguma coisa depois desse carnaval na praia?
- Jorge, esqueceu que suas sobrinhas vem passar o feriado aqui em casa? Combinei com sua irmã, elas devem ficar toda a Semana Santa...
- Semana Santa com as meninas da Alice? Meus Deus, quero ver o que vai ter de santa nisso...
Saiu, enquanto a mulher guardava as compras e foi pensando como iria enrolar as sobrinhas desta vez. As garotas certamente iriam pedir aqueles malditos e caríssimos ovos de chocolate e, como eram os “tios mais legais” que elas tinham, não poderiam decepcioná-las. Mas Jorge estava realmente sem paciência, sem ânimo e sem dinheiro para mais um feriado de festa, muita gente falando ao mesmo tempo, aquele almoço com sogra, cunhados, etc., etc. e mais etc. Fazer o quê?
Na semana anterior combinou com esposa que traria menos peixe dessa vez. O preço do bacalhau tinha aumentado, o vinho também estava mais caro. Pensou em pescar uns peixinhos no rio da cidade, mas desistiu só de pensar na quantidade de lama e lixo que havia na água. Bom, deveria diminuir o tamanho da torta e da panela de peixe ensopado. Pra isso deveriam diminuir o número de pessoas no almoço.
- Tá maluco, né, Jorge? Como é que vou falar pra mamãe não convidar todo mundo? Fazemos isso há anos, esqueceu? ANOS! Não dá pra mudar a tradição da família só porque vai faltar peixe. Você tem cada ideia...
Primeiro plano descartado. As meninas chegaram e a casa numa animação que só vendo. Um dia ele chegou bufando, quando as crianças estavam na sala, e falou bem alto:
- Galera, esse ano o coelhinho da Páscoa não vem!
O filho pré-adolescente fez cara de quem não entendeu nada, as meninas fizeram cara de choro.
- Como assim não vem, tio Jorge? E os nossos ovos?
- Então, o titio conversou bastante com o coelhinho e ele falou que tá com problemas de família. A senhora coelha vai ter filhinhos e ele não pode deixar ela sozinha, não é mesmo?
- Mas quem vai trazer nossos ovos de chocolate?
- Ninguém, ora! É o que estou dizendo.
O filho deu uma gargalhada e as meninas começaram a chorar.
- Calma, meus amores, vamos pensar diferente. Afinal, Páscoa não é chocolate. Pensem no renascimento... Vocês sabiam que antigamente se presenteava com ovos de verdade pintados à mão? Podemos recuperar esse costume, o que acham?
As meninas saíram correndo, chorando, chamando pela mãe. Vanda olhava encostada na porta, com aquela cara que Jorge bem conhecia. Lá vinha bronca:
-Você enlouqueceu, meu filho? Olha o que fez com as meninas, como é que vou explicar pra sua irmã?
Sem titubear e sem se entregar ao olhar furioso de Vanda, Jorge deu um beijo na testa da esposa e disse calmamente:
- Contenção de gastos, querida. Pelo menos vai ser uma Páscoa diferente...





sábado, 3 de março de 2012

Sem Título


Se não fosse assim, talvez outro som embalasse os fins de tarde sem chuva
Talvez outro tom contornasse o bailado das coisas miúdas espalhadas mesa
Talvez outra cor enfeitasse o balanço das saias e dos cabelos.
Se assim não fosse, talvez eu tivesse mais sono ou mais sede
Talvez um falsete
Talvez nada disso – não disse que não.
Talvez existisse outra casa, outra barca, outro mar
Ou só um rio, um arrepio, um caminho
Talvez um desvio
Um atalho – outro modo de chegar no mesmo destino.
Se não fosse assim talvez um cansaço
Um silêncio
Outro abraço que não esse
Outro beijo que não esse
Outro sonho que não esse.
Se não fosse assim quem sabe uma tristeza eterna de pernas desencontradas
Quem sabe o açoite injusto de amores afastados
Quem sabe a solidão insonssa dos sábados inabalados.
Se não fosse assim, talvez sem sorte, sem riso, sem rima, sem saudade
Talvez até felicidade.
Mas ainda assim, se assim não fosse (feliz de quem sabe o que é)
Faltaria um pedaço
Faltaria um compasso
Faltaria saber como é – e graças!
Tão bom que seja assim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pré-carnaval


Já é carnaval na rua e eu nem acordei direito. Não enxergo direito. Uma névoa abraça meus olhos e não quero pensar em acordar. Parece que foi ontem ou anteontem que pedi um pouco mais de silêncio e minha cabeça ignorou. Fiquei sozinha e quase triste por não saber o que fazer. Mas mesmo assim saí de casa, saia longa, salto alto, rímel, sem batom. Saí pra não ficar em mim, calada. Saí pra ver o povo, as calçadas, os pés andando em pares, quatro pés caminhando lado a lado.

Já é carnaval nos blocos e eu nem terminei o mantra, a oração, o difícil meditar de cada dia. É tanto barulho e tamborim que já nem escuto mais o coração, o sangue correr, o piscar dos cílios, como eu fazia antigamente. Há muito, muito tempo atrás, eu podia sentir o som do piscar dos meus olhos. Era intenso, quase um transe. Hoje não consigo mais. Nem sei por quê.

Já tem samba na avenida e eu nem acabei o texto, nem escrevi uma página, nem respondi aos emails. Tem tanta coisa aqui dentro de casa que parece que a folia começou em mim, caiu da minha janela e se espalhou cidade afora. E eu nem pensei no seu sorriso ainda, nem abracei direito ainda, nem falei do amor que sinto e queria esquecer. Nem pensei com calma na noite de ontem, nem telefonei para quem devia, nem anotei na agenda o recado que tenho que te dar. Que queria ficar de olhos fechados, de perto, até decorar o cheiro do seu pescoço, até aprender a curva da sua orelha, até fixar a imagem que é tácita demais. Que pensei em esperar acabar a festa pra poder respirar mais fundo e calar o suspiro na sua boca. Que amanhã me parece tão longe só porque não é dia de dançar com seus braços segurando meus ombros, suaves, sem pressa de ser.

Já é carnaval e o dia está quente, e eu nem troquei de roupa, nem fiz a fantasia, nem cantei a marchinha do Pierrot. Nem vou fazer nada disso. Nem vou dançar frevo. Nem vou sambar de biquíni. Nem vou bater tambor. Nem vou. Prefiro ficar aqui, ouvindo de longe os batuques dos agogôs; prefiro ficar aqui, desenhando na parede o contorno da saudade, do silêncio e da vontade. Prefiro dormir mais cedo, acordar mais tarde, tomar suco de fruta e me alongar feito gato pelo chão frio e limpo. Já é carnaval mas ainda estou devagar, lenta e lerda querendo me jogar no sofá e ficar com as pernas na parede, cabeça pra baixo, inventando um outro jeito de ver a vida à minha volta. Ficar assim até passar a fome, o juízo e o cansaço. Aí então, tomar banho gelado, pintar os olhos e as unhas de vermelho-paixão, descer escadas e fazer a festa. Nem que seja por um dia, antes das cinzas, nem que seja na minha rua, pertinho, pra poder voltar correndo se eu me assustar.

Já é carnaval lá fora e eu ainda nem descobri você, nem entendi direito, nem te encontrei do jeito que eu gosto. A multidão tem pressa demais, pois já é carnaval. Eu de cá sem pressa nenhuma. Devagar, no contratempo, na contradança, esperando o intervalo que existe entre o seu olhar e o meu beijo. Aguardando o ar que sai da boca e do nariz compassado, denso. Esperando passar o bloco, a banda e o bando de gente pulando sem quê nem pra quê. Já é carnaval na rua e eu nem dormi direito.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Afrobeat



Hoje eu tô afrobeat
Tony Allen, Fela Kuti
Hoje eu tô afro-samba
Baden Powell
Tô Timbalada
Tô música afro, afrodança
Afrobrasileirafricaneguinha
Afro tambor, afrisson
Hoje eu tô na batida
No batuque
Todafro, sacolejante
Tô no semba, no sambangolê
Tô assim, afrossim
Hoje eu sou afrobeat.






quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

As meninas da Luz


São putas. Andam pela tarde, quase bem vestidas, mulheres como as outras. Feias. Nem velhas, nem novas. Todas putas. Não há como negar. Estão quase cansadas. Só não se dão ao luxo de parar porque é quase hora do jantar e o almoço ainda não chegou. Ele virá por muito pouco. Talvez a roupa nem saia do corpo, talvez nem se atrapalhem os cabelos e o dever estará cumprido. Voltam a caminhar.
São mulheres e certamente esperavam mais da vida. Como as outras, sonharam um dia com a felicidade. Mas a vida, injusta como é, lhes deu a Luz. Não sonham mais. Perderam em tantos cantos e tantas camas aquilo que toda mulher guarda para o homem de sua vida. Sim, toda mulher guarda, no seu lugar mais sagrado, algo para oferecer a um só, o último, mesmo que não seja único. O gozo mais sincero, o gozo da alma, aquele que faz exalar amor por todos os poros. Mas estas mulheres perderam este tesouro. Não por entregá-lo a alguém, mas antes por não ter a quem entregar. Assim, deixaram ir aos poucos, um pedacinho para cada um. Nem tão intenso que um homem pudesse perceber e adorar; nem tão leve que não as fizessem chorar. Assim, a cada parte que se entrega deste tesouro, um pouco de lágrima se lança do corpo, seja durante o ato, seja diante do espelho enquanto se lava a boca e pescoço molhado.
São quase velhas, quase no fim da estrada, quase agradáveis aos olhos sedentos de prazer. Mas há muito deixaram de ser meninas e não acreditam mais em outra coisa que não seja “fazer o bem sem olhar a quem”. Sem olhar nos olhos, sem beijo na boca, trabalham e garantem a vida de alguns filhos, algumas mães enfermas, alguns namorados desempregados. Garantem o mercado, a circulação de bens, a diversão dos homens. E ninguém lhes garante nada. Nem mesmo a vida – ingrata–, nem mesmo deus – se existisse –, nenhum santo ou político. Não faz diferença para ninguém, essa é a verdade. E para elas, nada mais que uma metáfora – Luz. Mas estão quase cegas. 

Tempo e contratempo



Há dias que são como uma pausa musical. O tempo necessário entre uma nota e outra, de dentro do ritmo, espera sem a qual tudo se descompassa e o som se esfumaça no espaço. Há meses que são como aquelas notas rápidas, tocadas quase em desespero pelo pianista na ânsia de ser mais rápido que a própria dor. Ser mais rápido que a própria dor. Parece que é o que estamos tentando por séculos, usando todos os artifícios e artimanhas que temos em mãos. Meditar antes que a ansiedade chegue; rezar antes que o desespero apavore; falar antes que as palavras não ditas se embolem no corpo; calar antes que a briga comece; gritar antes que nos digam o que fizemos de errado; fugir antes que tudo fique sério demais.

Não me acostumo com os passos errados. Gosto sim, dos contratempos. Gosto quando os pés se lançam fora do tempo forte, marcando o intervalo, dançando no silêncio, o tempo vazio. Gosto do tempo vazio, quando só silêncio é possível. Silêncio e espera. E quem disse que a espera é passiva? Meu silêncio é inquieto, dançante. Contra a minha vontade, por vezes, mas é este silêncio que se faz por hora. Tempo, tempo, contra (com o tempo forte no a) marcando as desdanças da minha vida. Tenho a impressão de estar na coreografia errada. Vez por outra dou uma olhadela de lado pra ver se estou com o par certo. Mas vai saber... melhor é seguir o compasso e deixar o ritmo da vida seguir seu fluxo. Errar também é fazer música.

Sinto que este intervalo é mais que uma parada antes do próximo instante. Sinto que o correr das horas deixa alguma coisa mais leve, leva alguma coisa que não é mais parte de mim. Agora, sinto-me no contratempo, entre o sustenido e o bemol, entre o giro e o próximo passo, no ar, em suspensão. No mais belo e divino intervalo.